Limites e possibilidades da psicanálise
- AMP

- 28 de out.
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Claudia A Conti
“Onde se encontrará a sabedoria e onde está o lugar do conhecimento? ” (Jó- 28)
A história da psicanálise é desde sempre permeada por críticas, é desde Freud que se tentam domesticá-la, ora como parte exclusiva da medicina - o que sem sombra de dúvidas mais que domesticação, já seria matá-la, afinal, medicalizar é exatamente o impedimento para o surgimento da dor e sofrimento que aponta para a existência do sujeito, ou ainda com críticas, como sua falta de cientificidade; o que incrivelmente não é problema para nenhum psicanalista, nem uma coisa, nem outra. O inconsciente está sempre em questão, mesmo que a ciência o queira excludente, ele não pode ser extirpado por um governo, “nem indexado a uma nosografia” (Harari, 63), o inconsciente se encarna no corpo erógeno, e mesmo que a cultura lhe produza reveses, como nos diz o próprio Freud, ainda assim, ele sempre renasce das cinzas, tal e qual uma fênix; o inconsciente vive de deixar vestígios em todos os campos e sempre vem dando notícias através do mal-estar, basta prestarmos atenção: perdemos objetos, esquecemos as coisas, trocamos nomes etc.
A psicanálise vem pensar a existência humana através do mal-estar do homem, de como ao longo dos séculos vem lidando com o que lhe incomoda, com o que lhe faz sofrer. A forma mais reconhecida sobre esse saber, o do sofrimento humano, é a angústia, em sua etimologia latina: estreitar, encolher, perturbar, inquietar e disso ninguém consegue escapar, mesmo que diversos saberes atualmente venham no intuito de eliminá-la, curá-la. Logicamente não levam em conta que ao eliminar a angústia elimina-se o próprio sujeito, aquele que, ao se deparar com a própria verdade, é o único que pode, por uma via mais que especial, lidar com ela – a do seu desejo. O desejo é o único remédio para a angústia, eliminando-a sem entende-la é a morte do desejo, é a morte do sujeito.
Mas a angústia para a psicanálise? O que ela é? Freud a define como ‘afeto fundamental, aquele que não mente’ e Jacques Lacan, um ano inteiro trabalha em O Seminário - livro 10 para apenas dela dizer; ano este que adentra ao campo do real, e define-a na relação com este real, mais especificamente da incidência real da linguagem no corpo, e que a partir deste momento inaugural da subjetividade humana, fica o sujeito para sempre assujeitado à ordem deste Outro, afetado pela linguagem e pelos furos que ela propicia ao seu corpo para encarnar. É através desse afeto que passamos a existir, é por onde ele comparece que somos tocados e assim, somos invocados a nos movimentar. O afeto, em sua etimologia tem a ver com tentar, ir buscar, e o sujeito angustiado, é o que está perdido em seu visar, sente-se evocado diante de alguns objetos e fica por eles tomado, assim se efetiva, se instala, e então se apassiva, tomado pela demanda alheia constituída através desses objetos ofertados pela cultura. A angústia como afeto constitutivo da subjetividade, demarca a diferença entre demanda e desejo, todas as outras gamas de afeto apenas advêm derivados do imaginário ou do simbólico, já a angústia, esta é da ordem do real. O sujeito afetado pela angústia se cura pelo desejo exatamente quando parte em sua busca; o eu, como sede da angústia, assim demarcado por Freud em sua metapsicologia denota a condição de deriva desse afeto, de sempre estar se deslocando, hora numa, hora noutra coisa, mas que nunca é recalcado e assim, acaba por deixar um resto, o a, no que ele em si é a insinuação da Coisa, do Estranho que nos toca, um afeto que “acarreta a falta de palavras” (Harari) e é nessa impossibilidade de simbolização pelo viés da palavra, que surge a angústia.
A psicanálise encontra suas possibilidades ao parar para ouvir a angústia ao invés de fazê-la calar, já que ao poder ouvir a dor que a faz despontar, dá lugar ao desejo; o discurso da psicanálise é a única saída ao silêncio que a cultura moderna faz imperar sobre a dor de existir. A contemporaneidade, tomada pelo capital, insurge com os objetos mais variados e acima de tudo os fazendo necessários, coloca o ‘eu’ numa corrida maluca por uma vitória inalcançável, afinal, seguidamente esses objetos são trocados por outros e outros, assim sucessivamente, sejam através das inovações tecnológicas ou dos modismos midiáticos. Mesmo os objetos da pulsão, estando inscritos numa imensa variabilidade, a tomar pelas diversas subjetividades, há um, que faz a angústia surgir e não todos esses outros, contudo, o que a faz calar, é apenas o desejo, seu remédio, embora inexequível, “as pulsões são o eco no corpo do fato de que há um dizer” (Harari,65)
A psicanálise ao dar lugar para a angústia, não vai em busca da imagem perfeita, da esfera habilmente constituída como forma perfeita, tal como citada no Banquete de Platão, mas sim, vai ao sabor da história de um sujeito, ouvindo o traçado que o mesmo faz em sua própria experiência e se constitui nela, com as nuances que lhe pertencem, exatamente no intuito de abordar com cuidado a verdade que ali está por ser ‘re-velada’. Na busca incessante de recusar seu mal-estar, o sujeito então se cola na busca de objetos que possam figurar-se como saída possível em direção à completude, consequentemente saída para seu sofrimento; porém o objeto a, o objeto em questão, traz em si uma certa radicalidade, na medida que demonstra em si, o ponto da constituição da subjetividade humana, exatamente da parte em que o sujeito se furta em querer saber, de um ponto de perda do real, o que o faz retornar sempre ao início encontrando-se novamente com a angústia.
Um processo psicanalítico põe o ‘eu’ de lado e promove o sujeito, sinaliza o homem como assujeitado ao inconsciente, encontrando nisso a singularidade de cada ser, e que, ao mobilizá-la, pode o sujeito livrar-se de seu gozo, daquilo que o faz sofrer e o impede para a criatividade e para a autonomia, pode então, no processo analítico aperfeiçoar seu modo de brincar com os signos, com as letras; seja pela palavra, pela arte, ou por alguma outra maneira que lhe seja realmente prazeroso.
No Seminário - livro 8, de Jacques Lacan, a seara percorrida é a da transferência, na qual o psicanalista nos traz com primor uma discussão do Banquete de Platão e o de um mito contemporâneo, o da família dos Coûfontaine, e leva-nos passo a passo, ponto por ponto ao que é o amor de transferência e como transformá-lo em amor pelo saber, ou seja, como transformar a transferência de amor em transferência de saber. Neste contexto, uma das fundamentais questões que ele aborda é a experiência do analista com relação a esta transferência, rumo ao “ (...) que deve ser a posição do analista” no setting analítico, lembrando que o mesmo se desdobra de formas variadas, desde o clássico consultório, aos hospitais, ambulatórios, penitenciárias, escolas e empresas, sim, a psicanálise viralizou, a peste é real. Então, diante da demanda do paciente, de seu apelo, onde o mesmo espera nossa ajuda, qual deve ser o papel do analista no processo transferencial? Ao analista cabe ocupar sim um papel, mas seria enquanto PHI (mais phi), para que o sujeito localize o significante faltoso? A função do analista é um paradoxo, pois no lugar que somos supostos saber, somos convocados a ser presença real, justamente na medida que isso é inconsciente a quem demanda, estamos no lugar em que o próprio ser se desvanece (dissipa, desaparece), assim podemos nos subordinar aos significantes da demanda do analisante enquanto objetos, evocando-lhe então, seu desejo. Contudo, é importante ressaltar que não há um ideal de analista, não há um esboço, diz-nos Lacan sobre este lugar, estar analista, ser analista, é uma posição que se ocupa, e que coloca no horizonte, através da decomposição dos elementos significantes, a dimensão do desejo e de sua valorização. Através da novela de Claudel, o mito dos Coûfontaine, Lacan nos aponta que não devemos ocupar a posição que Freud ocupava, a do pai, mas sim, aquele que aponta no drama subjetivo de cada um, sua constituição pela via da castração, e que esse sujeito se instaure, não como necessitado por ser castrado, mas exatamente por isso, sujeito de desejo.
Éramos antes de Freud apenas egos alienados na cultura, submetidos aos modos mais sintomáticos de se viver, postulando nalgum momento da história a verdade religiosa, depois a científica, e quando surge Freud trazendo a peste, como ele diz, faz com ela advir a verdade do sujeito, “o eu não é dono nem senhor em sua própria casa”, e nós, como bons filhos, estamos aqui a disseminá-la.
Passar por um processo de análise é sobreviver à peste, é reiterá-la em nosso dia-a-dia e nos havermos com a dor de existir, é nos humanizarmos e acima de tudo, consentirmos com a castração. É nos havermos com nosso inconsciente nos atropelando e darmos ouvidos a esses atropelos, escutando o que com isso dizemos; a verdade de cada um vem a ser revelada nesse processo, aquilo que antes velávamos de forma sintomática, se nos aparece como revelação, eis que a verdade surge e de forma clara.
O lugar singular que a psicanálise ocupa, por se fazer traçar na experiência do inconsciente, a coloca num lugar marginal, à parte de outras ciências, mas também, ao mesmo tempo que marginal, é acusada de elitista, nossa querida psicanálise é muitas vezes ‘mal – dita’, o que ainda aumenta ainda mais sua negatividade, mal sabendo seus detratores que é exatamente à partir de sua negação que podemos cada vez mais afirma-la como essencial, afinal não há sujeito sem dialética, e é por essa via que um outro pode assim, se reformular, produzir, elaborar, sublimar; a negatividade oferece os mesmos efeitos da interpretação, a psicanálise nos permite entrar noutros mundos. A peste vingou, pois cá estamos! Diz-nos Freud:
“(...) não há oposição entre natureza e cultura. Natureza é uma ideia de cultura. Basta colocar em questão o que se percebe e ver que não tem nada a ver com o Real; são designações de palavras, e isso constitui a coisa, a coisa que faz andar o mundo. ”
O processo analítico sempre é possível na medida que há em todo ser uma subjetividade, um sujeito do inconsciente imerso em suas pulsões, buscando a todo instante formas de as representar, através de palavras ou atos, mas sempre na visada de um objeto que represente a si e a seus desejos inconscientes. A libido insaciável na busca constante de satisfação, percorre caminhos as vezes tortuosos como forma de lidar com a difícil realidade, com o difícil do real, o que a faz perfilar-se por caminhos de gozo muitas vezes, gerando sofrimento, assim, cada ser, por sua vontade, pode submeter-se ao processo analítico, e ao final de uma análise, um analista se dá, conforme nos diz Jacques Lacan, mas mesmo sendo difícil o caminho, será que só isso bastaria para formar um analista? Passar pelos vieses da teoria em sua própria análise? Logicamente que a análise é apenas parte do tripé da formação analítica, ela é e sempre será imprescindível ao analista, mas conjuntamente, a teoria, o estudo da metapsicologia freudiana, e a supervisão de seus atendimentos, são também coparticipantes nesta ação. Não há analista sem análise, nem sem teoria, nem sem supervisão. O tripé é movimento salutar em direção à peste, em direção a sua transmissão. Os limites da psicanálise? Apenas na resistência de cada subjetividade, mas Lacan nos adverte que “a resistência é sempre do analista”, logo, a viralização da peste está em nossas mãos.
Bibliografia
Freud, Sigmund. Obras Completas. Projeto de uma Psicologia Científica para Neurologistas - O Eu e o Isso – O Estranho – Biblioteca Nueva, Madrid. 1981.
Harari, Roberto. O Psicanalista, o que é isso? Companhia de Freud, RJ. 2008
Hegel, Georg W.F. Fenomenologia do Espírito. Editora Vozes, Petrópolis. 2011
Lacan, Jacques. Escritos. A Direção do Tratamento e os Princípios do seu Poder. Zahar, RJ.1981.
Lacan, Jacques. O Seminário livro 8. A transferência. Zahar, RJ. 1992
Lacan, Jacques. O Seminário livro 10. A angústia. Zahar, RJ.2004
Revista da Associação Psicanalítica de Porto Alegre. Nº 34 janeiro/junho Angústia: vide bula. 2008





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